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Paradoxo Francês | O vinho pode ser o melhor amigo do coração?

O vinho é uma bebida amplamente consumida e apreciada um pouco por todo o mundo. No início dos anos 90 foi anunciado que o consumo moderado de vinho poderia ter um efeito cardio protetor, aumentando o interesse no seu consumo.

Epidemiologia

Estudos epidemiológicos indicam que nos países desenvolvidos existe uma dieta com um elevado consumo de gorduras saturadas e colesterol, que estão associados a um elevado risco de mortalidade por doença cardíaca.

Paradoxo Francês

No entanto, em França esta relação é menos aparente: os índices de mortalidade por doença cardíaca são significativamente mais baixos do que em outros países com consumos idênticos de lípidos como o Espanha ou os Estados Unidos. Esta descoberta é paradoxal uma vez que o consumo de gorduras saturadas em França representa cerca de 15% do consumo total diários, sendo superior ao recomendado (aproximadamente 10%). O interessante é que apesar de todo este consumo superior de gordura, a mortalidade e incidência de doença cardíaca coronária é apenas 1/3 do resto do mundo.

Uma vez que um fator distinto da dieta dos franceses é o consumo frequente de vinho tinto com as refeições, tem existido um interesse crescente na correlação entre o consumo da bebida e a baixa incidência de doença coronária sendo este um fator frequentemente associado.

Assim sendo, o paradoxo francês é definido pela proteção contra doenças cardiovasculares pelo consumo moderado de bebidas alcoólicas, nomeadamente vinho.

Benefícios do vinho

Benefícios do vinho à saúdeO vinho está associado à redução do risco de doenças cardiovasculares, tendo inclusive sendo incluído como um dos fatores considerados saudáveis para a prevenção primária de doença cardíaca coronária. Existem 3 constituintes presentes no vinho que poderão ser o mote para esta teoria, são eles o etanol, os compostos fenólicos e um composto presente nas películas das uvas (denominado de óxido nítrico).

O etanol poderá ter efeitos cardioprotetores uma vez que provoca um aumento da concentração de “colesterol bom” (HDL) no sangue . Os compostos fenólicos são compostos responsáveis pelas qualidades organoléticas do vinho tinto (cor, sabor, textura, adstringência) e podem atuar como antioxidantes e diminuir o risco de trombose. Por último o óxido nítrico pode provocar o relaxamento do endotélio aórtico, reduzindo a pressão arterial e diminuindo consequentemente o risco de doença coronária. Além disto foi provada a sua capacidade de reduzir a má circulação nas extremidades, melhorar o prognóstico após um enfarte agudo do miocárdio e reduzir a incidência de doenças cardiovasculares e a sua mortalidade.

É importante manter bons hábitos

O efeito de hábitos saudáveis de vida como exercício regular está associada a diminuição do risco de doença cardíaca, sendo que a mortalidade é mais reduzida em pessoas que consomem álcool moderadamente e são fisicamente ativas.

Há que tomar cuidado

É considerado pela OMS o consumo moderado como 1 copo por dia para mulheres e 2 copos por dia para os homens. A ingestão excessiva ou crónica de etanol resulta em danos em inúmeros órgãos como o cérebro. Isto ocorre devido à capacidade do etanol provocar stress oxidativo em diferentes sistemas de células levando à formação de radicais livres. Além disso, ao ultrapassar a dose diária recomendada de álcool os benefícios deixam de existir, passando a existir sérios riscos para a saúde.

Outros Benefícios do consumo de vinho tinto

O consumo de vinho também está associado a outros benefícios para além dos descritos no paradoxo francês. É reconhecido ao vinho uma diminuição do risco de depressão, uma vez que o mecanismo patofisiológico é partilhado com o das doenças cardiovasculares. Pode também prevenir o cancro da mama em mulheres em situação de pré-menopausa uma vez que reduz os níveis de estrogénio e aumenta os de testosterona, criando uma situação de equilíbrio no organismo. Um consumo moderado de vinho pode também prevenir a demência uma vez que reduz a agregação plaquetária; esta redução permite que os vasos sanguíneos estejam livres e mais flexíveis permitindo um bom fornecimento de sangue para o cérebro.

Além disto existem também compostos no vinho (designados por flavonoides) que possuem funções cardioprotetoras, antioxidantes, anti-inflamatórias, anti-mutagénicas e anti-microbianas.

Notas Finais

Apesar das evidências dos benefícios do consumo moderado de vinho é de notar que o consumo de vinho está geralmente associado a classes sociais mais elevadas, sendo que o perfil biológico e clínico é mais favorável, o que poderá explicar a baixa morbilidade e mortalidade. O vinho per se é rico em compostos fenólicos com inúmeras evidências que podem indicar benefícios no seu consumo, no entanto não devemos estar preocupados apenas no consumo de vinho, mas principalmente em manter uma alimentação equilibrada e um estilo de vida saudável.

Referências
  1. BIAGI, Marco; BERTELLI, Alberto A.e.. Wine, alcohol and pills: What future for the French paradox?. Life Sciences, [s.l.], v. 131, p.19-22, jun. 2015. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.lfs.2015.02.024.
  2. STANLEY, L. L., Mazier, M. J. P., & Scotia, N. (1999). Potencial Explanations for the French Paradox. Science, 19(1), 3–15.
  3. SUN, Albert y; SIMONYI, Agnes; SUN, Grace y. The “French paradox” and beyond: neuroprotective effects of polyphenols1,2 1Guest editor. Free Radical Biology And Medicine, [s.l.], v. 32, n. 4, p.314-318, fev. 2002. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/s0891-5849(01)00803-6.
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Escrito por Maria Inês Rouxinol

Portuguesa, licenciada e mestre em Bioquímica pela Universidade de Évora. Estudante de doutoramento em Bioquímica. A minha área de interesse é a Bioquímica dos Alimentos.

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Seria o vinho uma bebida benéfica à saúde de ao nosso coração? O Paradoxo francês se refere ao fato dos franceses terem a dieta com alto consumo de gordura.